Psicologia

Uma alternativa para as dificuldades de aprendizagem e comportamento

Com o Neurofeedback, pessoas de todas as idades podem ter acesso a uma alternativa para auxiliar nos transtornos de aprendizagem e comportamento de forma segura, sem o uso de medicação

Descobertas da neurociência mostram que os transtornos de aprendizagem ocorrem quando há um padrão disfuncional de ondas cerebrais fazendo com que o indivíduo apresente déficits significativos nas habilidades cognitivas de leitura, escrita e raciocínio lógico, na atenção e comportamento. Entretanto, quando isso acontece, o Neurofeedback pode auxiliar no tratamento.

Considerada uma ferramenta inovadora no campo da reabilitação neurológica e psicológica, o Neurofeedback veio como possibilidade de modular as ondas cerebrais, e à medida que o tratamento avança, a melhora e o bem-estar ficam evidentes, pois o repertório comportamental e emocional do paciente torna-se mais positivo, podendo ser descartado ou reduzido o uso de medicação.

Utilizado há décadas nos Estados Unidos e Europa, o Neurofeedback é uma técnica de treinamento cerebral que vem alcançando resultados surpreendentes não só no tratamento de patologias, como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno Desafiador Opositor (TDO), Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), quanto na depressão, síndrome do pânico, ansiedade, estresse, insônia, entre outras.

“O principal objetivo da técnica no tratamento dos transtornos de aprendizagem e comportamento é potencializar o funcionamento cerebral. Ela busca um equilíbrio funcional que permita aprimorar o foco, a atenção, a concentração e a memória, atuando também nas questões emocionais e, consequentemente, reduzindo sintomas de diversas psicopatologias ou patologias”, explica a psicóloga Gislaine Azzolin, que faz parte de uma equipe de profissionais especializados no tratamento com Neurofeedback, em Curitiba.

O menino Leandro Hideyuki Otuka aos 3 anos e meio de idade teve o diagnóstico de autismo e TDAH. Ele era uma criança desatenta, extremamente irritada e com problemas comportamentais. “A desatenção era tão grande que ele não conseguia jogar um papel no lixo se o cesto estivesse longe. No meio do caminho, ele soltava o papel da mão e ia fazer outra coisa. Não tinha foco. Tentamos tratamentos com medicamentos, mas nenhum surtiu efeito”, conta a mãe Eimi Otuka, que mora no Japão e no ano passado veio buscar tratamento no Brasil, onde teve a indicação do Neurofeedback. Ele foi atendido pela psicóloga Izildinha Regina Castagini, que faz parte da equipe.

“Durante seis meses fizemos trinta sessões. Foi muito tranquilo, sem efeito colateral, e, como meu filho gosta muito de jogos eletrônicos, era uma diversão para ele. Retornei ao Japão em 2017 e nem parece que eu trouxe o mesmo menino que levei em 2016. A atenção melhorou muito. Hoje, com 12 anos, ele consegue se focar naquilo que está fazendo, consegue cumprir todas as obrigações do dia sem eu ter que falar inúmeras vezes. A lição de casa então era um tormento, agora ele faz tudo sem precisar que eu esteja em cima. A irritabilidade também melhorou bastante, hoje em dia nós conseguimos conversar, o que antes era impossível e, em consequência, os problemas comportamentais também diminuíram. Enfim, a nossa vida melhorou muito!”, comemora Eimi Otuka.

Como funciona o Neurofeedback

“O tratamento consiste primeiramente em um mapeamento das ondas cerebrais para detectar padrões disfuncionais através do eletroencefalograma (EEG). Em seguida, é definido um plano terapêutico individualizado no qual serão trabalhadas as correções da atividade cerebral disfuncional. À medida que os padrões de ondas cerebrais são regularizados durante o tratamento, o desempenho cerebral é ajustado, possibilitando um maior rendimento da capacidade cognitiva e melhora de sintomas psíquicos ou emocionais”, explica o psicólogo Bruno Paolo Beltrami Javorski. Bruno atendeu Bil Fiorezi, 34 anos, e o método melhorou muito sua performance cerebral, beneficiando seu rendimento nos estudos e a memória. “Estudo para concurso público, e o tratamento me ajudou muito a assimilar conteúdos, a agilizar o raciocínio que ficou mais rápido. Além de facilitar a aprendizagem, o Neurofeedback me deixou mais tranquilo, menos estressado. Agora, não fico mais nervoso e ansioso na hora das provas”, celebra Bil.
Outro jovem beneficiado com o tratamento, que melhorou a aprendizagem, foi o Yago Weber, de 11 anos, paciente da psicóloga Gislaine, que apresentava déficit de atenção na escola. “Desde os 7 anos, meu filho começou a apresentar dificuldades de aprendizagem devido à falta de atenção e concentração nas aulas. Depois de várias sessões com Neurofeedback, hoje ele está mais atento, faz as tarefas sem auxílio de outra pessoa, está mais organizado e independente. Além disso, às vezes pede novas sessões de tanto que gostou e o ajudou no dia a dia”, acentua a mãe, Kátia Weber.

Através de feedbacks (respostas) visuais e auditivas de seu funcionamento – por meio de música, vídeo, jogos, luminosidade –, o cérebro aprende a operar de uma forma mais eficiente, aumentando a sua capacidade de operacionalização com menor gasto de energia, o que é muito benéfico para estudantes em período pré-vestibular ou concurso público. Em média, são necessárias de 30 a 40 sessões, duas vezes por semana, com duração de uma hora cada.

Entendendo o funcionamento do processo terapêutico

1ª etapa: Anamnese – A coleta de dados é fundamental para o levantamento dos objetivos do processo. Nesse momento são coletadas informações gerais, queixas, histórico e objetivos a serem alcançados.

2ª etapa: Mapeamento cerebral – Através de eletrodos no couro cabeludo, a avaliação é realizada com o objetivo de conhecer o padrão de funcionamento do cérebro: frequências predominantes, conectividade e sincronicidade. Com essa avaliação, juntamente com os dados coletados, é criado um plano de treinamento, cujo objetivo principal é substituir os padrões cerebrais disfuncionais por padrões funcionais, permitindo que o cérebro trabalhe de forma mais harmônica e com economia de energia.

3ª etapa: Treinamento – O treinamento se dá por feedback sonoro e/ou visual do funcionamento cerebral em tempo real. Através de sessões semanais, o cérebro aprende (por condicionamento operante) a corrigir as atividades cerebrais disfuncionais, organizando a sua fisiologia, aprimorando o funcionamento mental em busca de maior eficiência e bem-estar.

“Com a autoconsciência desenvolvida pelos treinos das ondas cerebrais, a pessoa aprende a alterar estados mentais, otimizando o desempenho pessoal e profissional bem como suas habilidades, melhorando a sua qualidade de vida”, enfatiza a psicóloga Bianca Bussolari Cooper.

Principais indicações

Muito comum na atualidade, os transtornos de aprendizagem e/ou comportamento podem se manifestar de formas diferentes, podendo causar vários problemas na vida diária das pessoas, sejam crianças, adolescentes ou adultos. Isso porque essas dificuldades específicas afetam as habilidades motoras, do processamento de informação e de memória do indivíduo. O tamanho do impacto e a gravidade disso diferem caso a caso, assim como a capacidade de cada pessoa para lidar com o problema e a sua reação ao suporte oferecido. Daí a importância da avaliação e elaboração de um plano de treinamento personalizado e adequado a cada caso.

Confira os transtornos de aprendizagem e comportamento que podem obter resultados positivos com o Neurofeedback:

TDAH ou TDA: Déficit de atenção e hiperatividade ou transtorno de déficit de atenção, uma combinação de desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Transtorno do espectro do autismo (ASD): Dificuldades sociais, insuficiência de comunicação e comportamentos restritos.

Dislexia: Dificuldades com leitura.

Disgrafia: Dificuldades na escrita.

Dispraxia: Dificuldades motoras que afetam os movimentos e a coordenação.

Discalculia: Dificuldades na compreensão e aprendizagem da matemática.

“É fato que as pessoas com transtornos de aprendizagem e comportamento irão experimentar maiores desafios na vida do que aquelas que não as têm. Entretanto, esses desafios poderão ser contornados e amenizados com o Neurofeedback, garantindo assim o bem-estar e a qualidade de vida dos pacientes e seus familiares”, acentua a psicóloga Viviane Tulio, integrante da equipe.

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