Bem Estar

Vencer os traumas para seguir na vida

Psicóloga fala sobre como lidar com medos que impedem a felicidade

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Medo de altura, de elevador, de falar em público, de dirigir. Não importa o que seja, esta palavra tão pequena pode fazer um estrago enorme na vida de quem convive com este sentimento. Ele apavora, paralisa e pode causar diversas limitações.

O medo é natural do ser humano. É quando o organismo se coloca em alerta, diante de algo que se acredita ser uma ameaça. É ele que muitas vezes protege do perigo, mas em excesso pode se transformar em uma doença na sociedade atual, a fobia, pânico, ansiedade generalizada, entre outros.

As experiências traumáticas podem se apresentar de diferentes formas e se tornar mais ou menos debilitantes. “Algumas pessoas permanecem em estado de alerta, outras tem sensações físicas desconfortáveis ou se desconectam e sentem-se anestesiadas ou dissociadas, outras relembram o evento e permanecem num “looping” sem conseguir evoluir”, explica a psicóloga Janice Ornieski.

Segundo a psicóloga, quando uma pessoa pensa ou vivencia algo que a ameaça, o cérebro dispara involuntariamente uma série de compostos químicos que provocam diversas reações no organismo, como aumento do batimento cardíaco, aceleração da respiração e contração muscular – preparando o organismo para o confronto ou para fuga. “Essa reação ocorre independentemente do perigo ser real ou imaginário”, comenta a especialista.

As sensações podem ser acompanhadas ainda de outros sintomas físicos, como: dores crônicas no peito e nas costas, dores de cabeça, indisposição estomacal, tontura, tensão muscular, enjoo, batimentos cardíacos acelerados, dificuldade para respirar, arrepios, pesadelos, flashbacks, ataques de pânico, hipersensibilidade a luz, som, odor, toque e paladar, assim como cansaço, esgotamento, insônia, baixa libido e fraqueza física.

A psicóloga comenta que neste momento é importante procurar ajuda. “Muitas pessoas foram educadas para serem fortes, engolir o choro, guardar a raiva, despistar os medos, mas ao reprimirmos o que sentimos, impossibilitamos nosso corpo de se equilibrar”, diz. “Além disso, quando as pessoas passam por situações traumáticas, o medo de vivenciar novamente algo similar pode ser limitador em muitos sentidos”, completa.

Segundo Dra Janice, o problema é ainda maior nos jovens. “Existem estudos que comprovam que a geração atual sente dez vezes mais medo do que a geração anterior devido à quantidade de estressores do meio ambiente, como medo de ser assaltado, sofrer acidente, ser demitido, traído, entre outros”, exemplifica.

Uma mesma situação pode ser mais ou menos traumática para a pessoa conforme a duração e a gravidade do evento traumático, assim como a época do acontecimento e estágio emocional, o nível de resiliência, genética, o autoconhecimento, entre outros. “Normalmente, quando estamos felizes, nos sentindo bem ou em equilíbrio, uma situação difícil certamente nos abalará menos do que quando estamos passando por uma fase de maior dificuldade. No entanto, nas situações de trauma, a forma como o nosso sistema nervoso responderá diante à ameaça é, na maioria das vezes imprevisível e nos afeta mais ou menos dependendo das nossas possibilidades de resposta de luta e fuga no momento do evento, além disso, quanto mais estresse sentimos, mais a memória traumática é fixada”, destaca a psicóloga.

 

Momento de procurar ajuda

Se os medos que você sente estão te causando desconforto, problemas na vida pessoal ou profissional, é preciso buscar ajuda de um profissional especializado. “Fazer um bom diagnóstico é imprescindível para auxiliar as pessoas que chegam apresentando sintomas decorrentes de traumas”, afirma Dra. Janice.

O tratamento e a dessensibilização de traumas deve ser realizado de forma cuidadosa. Em seu consultório inicialmente a Dra Janice realiza um trabalho que se chama psicoeducação. “Explico à pessoa o que acontece com o seu organismo quando passa por momentos traumáticos e como ela pode reestabelecer o equilíbrio, em seguida treinamos estratégias de autorregulação utilizando ferramentas diferenciadas”, diz. Dessa maneira o cliente aprende lidar com as sensações corporais desconfortáveis, sentimentos, pensamentos e imagens negativas. “Quando as pessoas passam por situações traumáticas, o medo de vivenciar novamente algo similar pode ser limitador em muitos sentidos, visto que existe uma grande carga de tensão que não foi descarregada adequadamente” afirma Janice.

O número se sessões varia para cada pessoa. Nas situações mais simples, quando o evento aconteceu há pouco tempo, os resultados tendem a ser muito rápidos, variando entre 3 a 6 sessões. “Quando a pessoa aprende a confiar na sua capacidade de lidar com os problemas, as transformações acontecem naturalmente”, diz.

 

Confira algumas dicas para aprender a enfrentar os seus medos:

  • Dê atenção para o seu corpo. Identifique, observe as sensações e os sentimentos diversos que vem e vão como uma onda permitindo que descarreguem e passem. Aceite os sentimentos e crie estratégias para liberar e soltar as sensações e emoções de forma gradual e segura.
  • Se trate com carinho e gentileza, descanse se necessário, essa atitude facilita a descarga das tensões acumuladas e a autorregulação.
  • O medo é um sentimento que passa, sinta, aceite e deixe que passe, pois se absorvemos o medo e se ficarmos recontando a situação traumática, podemos retraumatizar e nos tornar propagadores, espalhando o medo para os outros. Embora compartilhar seja uma reação instintiva, o medo é contagioso. Dessa forma, seja cuidadoso(a) para manter o equilíbrio e não afetar as pessoas a sua volta.
  • Reafirme para si mesmo(a) que tudo passou, que você sobreviveu e está a salvo. Mantenha-se esperançoso(a) sobre o futuro.
  • Transforme o medo em cautela e procure dar um passo de cada vez reafirmando que você é capaz.
  • Mesmo que o medo seja intenso, lembre-se que você pode agir na presença do medo, da ansiedade e dos pensamentos intrusivos. Nós somos maiores do que as nossas emoções, sensações e pensamentos, por isso dê atenção ao que se passa, aceite e solte aos poucos.
  • Desconstrua os pensamentos negativos e catastróficos, afinal são só pensamentos, não são fatos. Simplesmente interrompa-os.
  • Confie na capacidade inata que o nosso organismo tem enquanto mamífero de se autorregular. Nossas memórias são aprendizados, temos muitos recursos e já superamos muitas dificuldades.
  • Normalmente, o tratamento terá melhores resultados se for iniciado assim que o evento difícil ocorre, no entanto, alguns estudos mostram que reações traumáticas físicas, emocionais, sociais, mentais ou comportamentais podem ocorrem depois de muitos anos do evento.
  •  Com crianças convém observar se houve melhora depois do evento traumático e, em caso negativos, entre 3 a 4 semanas é importante procurar ajuda se houverem sintomas como medo de dormir, pesadelos, conversar ou gritar durante o sono, acordar agitada, xixi na cama, culpa, necessidade exagerada de atenção, choro constante, silêncio excessivo, baixo rendimento escolar, entre outros.
  • Explore o medo, identifique o que está por trás dele e pergunte-se: “De que forma que eu posso lidar com isso para me sentir melhor?” Às vezes precisamos descarregar as sensações desconfortáveis, às vezes precisamos falar sobre os nossos medos e ansiedade e às vezes precisamos ficar quietinhos, respirar um pouco, visualizar um lugar seguro, enfrentar aos poucos dando um passo de cada vez, mudar o foco de atenção, ter uma atitude positiva, uma boa noite de sono, parar de antecipar perigos ou ignorar os estímulos negativos.
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