Fonoaudiologia

Luz, câmera, som!

Para quem volta a ouvir ou para quem nunca escutou, o som é a atração principal

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Pense no som das buzinas no trânsito, na música que você não gosta tocando no rádio, no vizinho barulhento do apartamento acima do seu, no cachorro que não para de latir de madrugada, enquanto você tenta dormir. Agora, imagine que esse barulho todo não existe mais e há um silêncio profundo. Num primeiro momento, a sensação é ótima, de relaxamento. Mas e se você, simplesmente, no prazo de uma semana, deixasse de ouvir qualquer tipo de som, ruído ou fala, sem saber o motivo?

Foi que ocorreu com a estudante de psicologia Priscila de Fátima Silva Soares (27), quando ela tinha apenas 17 anos. “Eu não tinha nenhum problema, mas, de repente, minha audição foi abaixando e no sétimo dia, acabou”, recorda ela. “Fiquei nove anos sem ouvir. No silêncio, 24 horas por dia.”

Em janeiro do ano passado, uma cirurgia de implante coclear devolveu a Priscila o prazer de ouvir novamente. “No começo, resisti um pouco à ideia da cirurgia”, conta ela, que ficou sabendo do implante pelo namorado, um dos principais incentivadores, quando ela já tinha desistido de voltar a ouvir.

Eita, barulho bom!

Para Priscila, voltar a ouvir foi estranho, surpreendente e, ao mesmo tempo, engraçado. “Agora, até o som ruim é ótimo. Eita, barulho bom!”, brinca ela. Agora, Priscila, que nem se lembrava mais qual era o som dos passos, pode ouvir o canto dos pássaros, as crianças brincando nas praças e, principalmente, a voz das pessoas que ama.

A voz do namorado foi a primeira que Priscila ouviu depois de ativar o implante coclear. “Aquele foi um momento muito importante: três anos namorando e eu nunca tinha ouvido a voz dele, só imaginava. Ao mesmo tempo, foi engraçado, pois na hora ouvi bem fina, mecanizada. Mas, ao se passarem os dias, eu fui me habituando, me familiarizando com os sons”, explica.

Priscila diz que as vozes eram do jeito que ela imaginava. Isso porque, durante o tempo que ficou sem ouvir, ela projetava a voz das pessoas que conhecia. “A única que eu errei foi a do meu irmão, que havia escutado pela última vez quando ele ainda era criança. Quando eu o ouvi novamente, ele estava com 19 anos. Nossa, não era a voz que eu lembrava”, diz rindo. “Ouvir novamente as vozes dos meus pais e irmãos foi demais.”

Outra boa surpresa e recordação foi ouvir a música Drowning, sucesso da banda Back-street Boys, que Priscila curtia muito com as amigas na adolescência. “Fiquei muito emocionada. Chorei de felicidade.” Por ora, ela diz que gostou de conhecer Maria Gadú, Seu Jorge e ficar por dentro dos sucessos de Djavan e Caetano Veloso.  “Estou ouvindo músicas desses noves anos que se passaram, então, ainda é tudo novo para mim”.

O que é implante coclear?

  • Também conhecido como “ouvido biônico”, o procedimento consiste no implante cirúrgico de uma prótese eletrônica, com componentes colocados atrás da orelha e na cóclea.
  • A prótese eletrônica fornece impulsos elétricos capazes de estimular diretamente o nervo auditivo por meio de eletrodos colocados dentro da cóclea – isso faz com que o usuário perceba o som.
  • O aparelho conta com um discreto componente externo, parecido com uma prótese auditiva, que possui microfone, processador de som e antena geradora, além de pilhas.
  • Já o componente interno é implantado embaixo da pele, com uma antena receptora e eletrodos de estimulação.

 

Ajuda especializada

Mesmo com o problema, Priscila não deixou de estudar. Está no 4º ano do curso de Psicologia e pensa em se especializar na área de audiologia, para ajudar pais e filhos a conviverem com qualquer dificuldade auditiva, especialmente aqueles que não ouvem nada e precisam de um implante coclear. “Quero ajudar as famílias psicologicamente, para que não entrem em desespero.”

Nos anos em que não conseguia ouvir, Priscila se utilizou muito da leitura labial. Ela fazia isso tão bem que, no primeiro encontro, o atual namorado não percebeu o problema auditivo. “Foi uma amiga minha que contou para ele depois”, lembra ela.

Indicação

Segundo o cirurgião otorrinolaringologista Dr. Maurício Buschle, chefe da equipe multidisciplinar de implante coclear do Hospital Iguaçu, crianças portadoras de deficiência auditiva de grau profundo podem ser candidatas ao implante a partir dos 12 meses de idade.

O procedimento também é indicado em adultos portadores de deficiência auditiva sensorial bilateral de grau severo, que não conseguem escutar e entender 40% dos sons mesmo com próteses auditivas ou, ainda, para quem apresenta perdas mais profundas.

Atualmente, cerca de 100 mil pessoas usam o implante coclear em todo o mundo. A prótese do implante e a cirurgia têm a cobertura de muitos convênios, planos de saúde e seguradoras de saúde. A tecnologia está expandindo para perdas auditivas leves e moderadas, com bons resíduos auditivos e também para perdas unilaterais.

Fonoaudiólogos fazem o acompanhamento e a reabilitação dos pacientes após a cirurgia. Eles são os responsáveis pela ativação do equipamento e pelo mapeamento dos eletrodos. O fonoaudiólogo ajuda a pessoa a aprender a lidar com os novos sons e linguagem.

Diagnóstico

A surdez ocorre quando a cóclea e o nervo auditivo são afetados por problemas de saúde ou genéticos. Raramente existe tratamento medicamentoso. O diagnóstico pode ser obtido com um teste de audiometria, exame que avalia se existe ou não perda auditiva; inclusive a intensidade e o grau de surdez. Testes de processamento de linguagem são necessários em todos os pacientes pré-linguais adultos e também em crianças.

Em crianças menores ou lactentes, o exame utilizado é a otoemissão acústica e o potencial evocado auditivo de tronco cerebral, ambos indolores, não invasivos, rápidos e que não necessitam de colaboração do paciente. Além disso, são necessários testes de adaptação da prótese auditiva convencional, pois apenas pacientes não adaptados ou com pouco ganho são candidatos ao implante.

Exames de tomografia computadorizada e ressonância magnética são importantes para um diagnóstico preciso e para verificar a possibilidade da cirurgia.

Hoje, com os avanços da audiologia, todos já podem voltar a ouvir. Existem inúmeros tratamentos cirúrgicos para perdas auditivas, como reconstrução de tímpano e ossículos, implante de aparelhos auditivos para perdas leves e moderadas, além da constante evolução dos aparelhos convencionais.

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