Avanços da Medicina

Emagrecimento em grupo, a força que faltava

Mudança de atitudes, hábitos e comportamentos é o segredo de uma vida saudável

A correria do dia a dia da população implica uma alimentação pobre, carente de frutas, legumes e hortaliças, trocadas pelas gorduras disponibilizadas nos sistemas fast-foods e nas comidas industrializadas. Somado a isso, o sedentarismo e os maus hábitos alimentares levam ao acúmulo excessivo de gordura corporal. A obesidade é uma doença crônica e multifatorial de altíssima gravidade e morbidade, uma doença epidêmica que está diretamente ligada à questões emocionais, metabólicas, hormonais, nutricionais, genéticas e ausência de prática de atividades físicas. Ela representa um risco e junto com ela caminham outras graves doenças, desde cardiológicas, vasculares, hipertensão, diabetes, etc.

Dra. Priscilla Leitner, psicóloga clínica e responsável pelo Instituto de Pesquisa do Comportamento Alimentar de Curitiba (IPCAC), explica que não há uma fórmula mágica, já que emagrecer é uma mudança comportamental que envolve muita dedicação e um trabalho multidisciplinar. É nesse sentido que o Instituto desenvolve um amplo trabalho com equipe de profissionais especializados, visando oferecer suporte individual e em grupo para as pessoas que estão acima do peso ou obesas.

“Os encontros do grupo de emagrecimento são dinâmicos, pois ensinamos estratégias e recursos cognitivos aos participantes. O resultado destes ensinamentos incluem a capacidade de auto percepção, do entendimento dos porquês do sobrepeso, formas de evitar a auto sabotagem e encontrar forças para enfrentar os obstáculos”, evidencia Dra. Priscilla, que possui mestrado em Ciências Humanas, especialização em Psicologia Clínica e Psicologia Corporal, e atua clinicamente nos tratamentos com transtornos alimentares, obesidade e obesidade mórbida.

A psicóloga esclarece que o acompanhamento médico e os exames são necessários no início do tratamento, para identificar as carências e os fatores hormonais. “Inicialmente trabalhamos com a psicoeducação para conscientizar sobre algumas necessidades, pois o sucesso do tratamento vem da mudança de atitudes, hábitos e comportamentos. Essa é a chave”, afirma Dra. Priscilla. Os distúrbios do humor como a ansiedade, bipolaridade e depressão, bem como transtornos alimentares, também influenciam a obesidade e precisam ser tratados. Por isso na equipe temos a participação da psiquiatria, que dá suporte quando necessário.

No IPCAC, o grupo de pacientes recebe ainda suporte on-line e aconselhamento individualizado, e cada um assume sua responsabilidade no processo de emagrecimento e cria um vínculo coletivo sobre a própria meta e a do grupo. O trabalho realizado na clínica envolve psicólogos e nutricionistas e conta também com a participação de outros profissionais, como psiquiatra, endocrinologista e educador físico.

O prazer de comer bem e com equilíbrio nutricional

A dedicação e o apoio nutricional são fundamentais no programa do Instituto, pois é preciso conscientizar sobre esta nova mudança alimentar. “Diferenciar a fome com a vontade de comer é crucial, além disso é ensinado sobre o planejamento alimentar, no qual o segredo para alcançar a melhora da saúde está no prazer de comer bem e com equilíbrio nutricional. Muitas pessoas chegam para o tratamento com carências nutricionais, nesses casos é preciso reequilibrar o organismo”, expõe a Dra. Marília Rizzon Zaparolli, nutricionista e mestre em Alimentação e Nutrição, que integra a equipe do instituto.

Nesse intuito, o emagrecimento deve ser suave e constante, com uma alimentação saudável e sustentável, reduzindo assim os riscos de efeitos colaterais indesejáveis. Dra. Marília conta que grande maioria dos pacientes já fizeram inúmeras tentativas, alguns, inclusive, até a cirurgia bariátrica, em que a taxa de reganho de peso, em que voltam a engordar, passa hoje dos 20% dos operados. “Mais uma vez precisamos ressaltar a importância da mudança de comportamento, pois o paciente operado sofre uma mudança brusca no primeiro ano, perdendo de 30 até 60 quilos. Mas existem aqueles que, uma vez atingida a sua meta, acabam relaxando e deixando de lado os cuidados diários que tinham de manter para ter boa saúde, física, mental e nutricional, e voltam a engordar. É o famoso reganho de peso”, explica Priscilla.

De acordo com a psicóloga, a obesidade tem uma forte relação com fatores emocionais – por isso é tão difícil emagrecer. “Muitas pessoas emagrecem e voltam a engordar. No caso dos pacientes operados inúmeros fatores podem estar relacionados, inclusive a não compreensão das mudanças necessárias para a cirurgia, muitos idealizam os resultados e não se adaptam às mudanças inerentes ao processo”, reforça a especialista. Assim sendo, para atender à grande demanda, a equipe de profissionais criou um grupo só para pacientes já operados que precisam de acompanhamento ou tiveram reganho de peso.

A preparação para a cirurgia bariátrica também é uma preocupação dos profissionais do IPCAC, por isso formou-se um grupo de Orientação Pré-bariátrica, com encontros com a psicologia e nutrição para esclarecer e minimizar dificuldades após a cirurgia. “Recebemos muita demanda para laudo de liberação, mas percebemos, com a experiência de mais de 1.300 pacientes que, além da avaliação uma boa orientação, incluindo a orientação familiar, é fundamental”, explica a psicóloga.

“A obesidade é uma doença crônica e multifatorial de altíssima gravidade e morbidade, uma doença epidêmica que está diretamente ligada à questões emocionais.”

Ter corpo saudável, basta querer com forças

A analista de RH Deborah Viana Ferreira, 35 anos, uma das pacientes do instituto, conta que era uma pessoa muito ansiosa, e o problema, no caso dela, era não conseguir controlar a quantidade de comida. Foi dessa maneira que, aos poucos, ela ia engordando. Antes de iniciar o processo de mudança de hábitos, Deborah se alimentava muito mal, sempre com muitas gorduras e açúcares. Ela já tinha feito de tudo e, após muitas dietas malucas, descobriu que sozinha nunca conseguiria emagrecer. Na sequência, ela ficou grávida, o peso então saltou de 70 para 113,5 kg. Quando se viu diante de uma situação complicada com a balança, por estar muito acima do peso, ela resolveu buscar ajuda no IPCAC. Essa foi a última tentativa que fez, antes de recorrer, até mesmo, a uma bariátrica.

Para Deborah, o primeiro encontro com o grupo foi o que mais a motivou. “Estamos sempre em contato pelo WhatsApp, e isso está me ajudando muito”, conta a paciente. Hoje Deborah está em seu sétimo encontro e conseguiu emagrecer 13,5 kg. “Até dezembro, quero emagrecer 20 kg e nos primeiros três meses de 2017 quero chegar ao meu peso ideal: 70 kg”, afirma. “É realmente possível ter um corpo saudável, ideal; basta querer e ir buscar forças e vontade. Foi o que encontrei nesse grupo de apoio”, garante.

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